sexta-feira, 5 de agosto de 2011

DIÁRIO DE DIREÇÃO - "Ignácio & Maria"

Peça: "Ignácio & Maria"
Autor: Nara Mansur
Elenco: Priscila Souza e Ricardo Goulart
Data: 04/08/2011
Início: 17h

Vou descrever o estudo de hoje descrevendo e fazendo ponderações inclusive sobre o que foi proposto pelo Gustavo. Pra quem não sabe o Guga é parceiro na preparação das peças, não digo co-diretor porque as vezes ele é mais que isso, as vezes é meu diretor também, mas enfim, vejamos:

O ensaio começou com o Gu pedindo pros artistas se deitarem, e conforme deitavam-se observei que ele foi ajeitando seus corpos, alisando, tocando, entrando em contato, ultrapassando limites, criando pontes, ultrapassando obstáculos. Se isso foi inconsciente ou consciente, o fato é que foi muito interessante ver os laços de cumplicidade começarem a se estabelecer naquele momento. Afinal de contas, até para gritar com o ator é preciso estabelecer a ponte adequada para que o grito surta o efeito desejado, e esse primeiro contato me pareceu interessante e importante.
Em seguida, ele (o Gustavo) pediu para que os atores repensassem a respiração, isto é, desacelerassem a máquina corporal com uma longa inspiração/expiração, e assim fizeram, como uma máquina sendo reiniciada. Isto feito, passaram a um exercício de respiração composto por ciclos de 5 pulsos de expiração seguidos de 5 pulsos de inspiração, deitados no chão, acompanhando cada evento (inspirar/expirar) com movimentos de sobe-e-desce dos braços estendidos ao longo do corpo sincronizados com a respiração. Ao fim, foram convidados a respirar normalmente reajustando a respiração.
Porteriormente, ainda deitados, foram requisitados à fazer abdominais lentos, em fluxos contínuos, com os braços estendidos para frente, sentindo cada centímetro das costas subirem e descerem conforme o movimentos se desenvolvia.
Ao término, levantaram-se sem usar o apoio das mãos, o que criou uma cena inusitada e interessante, muito parecida com dança teatro.
Na sequência, no plano baixo (deitados), tinham que "rolar" com o impulso partindo da mão que percorria o corpo (seja pela frente, passando pelo peito e percorrendo até a mão oposta, seja pelas costas, correndo nuca até a mesma direção), transformando esse "rolar" num movimento consciente, lento e conectando todo o corpo nesse giro. Depois, repetiram o mesmo objetivo com o impulso partindo de um pé, percorrendo certa dimensão da outra perna, até que, levados pela torção corporal que este movimento proporciona, acabam por rolar.
Em seguida criaram um espaço ficcional onde havia um emaranhado de elásticos pelos quais tinham que passar sentindo toda a resistência que estes lhes provocavam. 
Seguiram-se ainda uma caminhada pelo espaço, na qual, conforme o comando do diretor, o "condutor" transitava ora sendo o Ricardo ora sendo a Priscila, e o outro tinha a tarefa de copiar, deixar-se conduzir pelo outro.
Após o tempo que o diretor julgou necessário, realizaram outro exercício ficcional imaginando que a diagonal do palco era uma corda bamba o qual deveria percorrê-la, materializando no corpo a imagem que tal ação lhes provocaria em realidade. Cabe um comentário aqui, faltou aos dois atores ousadia e até criatividade para perceberem que vários fatores atuam sobre um corpo numa corda bamba, como o pavor de altura, o medo de cair, etc. O desequilíbrio é apenas um deles, e foi só nessa imagem que investiram. Faltou corpo, voz e intensão.
Notamos agora uma mudança no sentido dos trabalhos, isto é, de uma atividade de aquecimento e consciência corporal o diretor está "aquecendo" os músculos da imaginação e da criatividade dos atores, pois todo agente ficcional é um agente imaginário, invisível, falso, porém real no universo lúdico.
Depois de caminharem "imitando" a forma de caminhar proposta pelo condutor, mantiveram o princípio deste exercício onde o que deveria ser feito não era mais só o "caminhar" mas, criar-se espaço, isto é, o condutor deveria criar um espaço sendo acompanhado pelo conduzido. Esse me pareceu um gancho feito pelo Gustavo no ensaio de ontem, que me pareceu bem apropriado e uma evidente tentativa de ambos, eu e ele, de mantermos nossas propostas cada vez mais conectadas.
Continuando, caminharam pelo espaço tornando-se seres ficcionais cujas características lhes impunha uma forma de moverem-se consciente e coordenadamente, o ser tinha asas, holofotes no peito que apontavam para o alto e frente, armadura e uma coroa que não deveria tombar. 
Por fim, caminharam pelo espaço atentos à comandos que deveriam obedecer de imediato, "abdominal", "pique sem sair do lugar", "stop", "empurra a parede imaginária". Auto explicativos. Após algum tempo, continuando essa tarefa, escolheram 3 ações relacionadas com a cena 3, as quais decuparam, apresentaram um para o outro e, então, transformaram tais ações em movimentos abstratos, compondo uma coreografia. As ações foram fundamentos inspiradores para a coreografia final.
Quando o Gustavo precisou sair, me ocupei de deixá-los repetindo por 20minutos a coreografia recém criada. Então pedi para pegarem seus textos, lerem o bloco 2 de textos da cena 3, por 2 vezes, para restaurar os fragmentos de texto na memória, fixando-se mais na ideia de cada fala do que na sua literalidade, e então pedi para me dizerem todos os exercícios que haviam feito com o Gustavo. Após repetirem, pedi para que fizessem todo o ciclo novamente com começo, meio e fim de cada exercício, resgatando a memória corporal do que haviam realizado. A partitura estava criada com a exceção da transição de uma ação para outra, apenas para que tudo não parecesse uma única ação. Essa transição não foi criada até a última das repetições. Após algumas repetições pedi para que começassem a associar cada ação com uma frase do texto e começassem a experimentá-la. Após esperar o tempo adequado, e as repetições necessárias, pedi para que externalizassem esse texto.
Observações: o Ricardo tem dito o texto da mesma forma da cena 1 à 3. Em vez de deixar o espaço, a ação e o movimento reverberar sobre o seu estado mental e a sua forma de enunciar o texto, ele faz o caminho oposto, impregna a ação realizada com a sua forma. Sua voz está saindo pra dentro, tímida, temerosa de encontrar o outro, no fundo não é medo do público externo, é medo do público interno, do Ricardo que mora dentro e julga o próprio Ricardo. Geralmente ele procura espaços próximos da parede e movimentos curvos, tal como os animais em fuga o escondendo-se. 
A Priscila, por sua vez, tenta impressionar com criações que nos agradem e esquece-se de agradar a si própria com criações que nem dependem de logos ou grandes planejamentos mas, sim, de ousadia, coragem e espontaneidade. Resultado: movimentos, gestos, vozes e corpos repetidos, e muita justificativa cerebral do tipo "não entendi o que queria", quando na verdade o que se busca é que eles "queiram", e desenvolvam sua objetividade, independência e pró-atividade em cena, isso é essencial para a construção da própria poética, e sem poética não há artista, há no máximo um copiador.
Além disso, ambos precisam responder aos comandos imediatamente, se ao caminharem o diretor diz "stop" e eles param no ato, quando o diretor diz "falem mais alto", eles devem falar mais alto, é a mesma lógica. Quando o diretor diz: "põe pra fora", tem que por pra fora, quando diz "deixa reverberar no corpo", "ousa", "não desiste do corpo", o ator DEVE responder ao comando com a mesma atenção e entrega de um "pique", "stop", "empurra a parede". Qualquer  coisa que o impeça disso são bloqueios psicológicos desnecessários e prejudiciais a quaisquer artistas que queiram de verdade encontrar o público em algum momento de suas vidas. A ousadia passa pelo obedecer a um comando sem saber onde ele te levará.
Reparei ainda uma perda considerável de energia, vigor, tônus, da primeira à última repetição, como resultado de quem não está consciente de que uma repetição não é só uma estratégia de vencer-se os bloqueios psicológicos, mas também de aperfeiçoar-se o que foi feito anteriormente. Isto é, há objetivo numa repetição, e esse objetivo tem de ser perseguido.
No fim, Gustavo e eu massageamos os dois, que deitados no chão enunciavam o seu texto como forma de desaquecimento e relaxamento físico. Então, conversamos sobre o que havia sido feito, receberam deveres de casa e combinamos os dias do horário. 
No que tange ao que fizemos hoje, criamos espaços de fora pra dentro, isto é, cada ação composta por um movimentos, por um tempo e por um local, implicava na construção de um espaço que muitas vezes não era percebido como tal pelos atores, mas que com o tempo poderiam associar com locais, os quais o movimento, o tempo, a sensação do que faziam, podia ser aplicada por semelhança.
O Gustavo falou sobre a necessidade de, numa próxima repetição do ensaio, os atore não tomarem as mesmas 2h30min que usaram neste ensaio para chegar no estado psico-físico que estavam, esse tempo deveria ser reduzido cada vez mais, pois o caminho já tinha sido trilhado e os atores deveriam guardar as impressões daquele estado de entrega e de criação para que nos próximos ensaios o tivessem "mais a mão". Essa ideia, conforme citado, é empregada pelo Renato Ferracini.


Frase pra ficar:
"Se falares, fatalmente não te ouvirão ou, se ouvirem, esquecerão. Escrevas e correras o risco de ser lido!"

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